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Brasil ganha força como polo global de M&A com o retorno dos negócios bilionários

A primeira metade de 2026 afirma‑se como um dos períodos mais relevantes para a atividade global de fusões e aquisições desde o pico de 2021, com o volume de negócios de M&A projetado para atingir USD 4 trilhões neste ano.

Os mercados de M&A no Brasil e nos Estados Unidos convergem, no primeiro semestre de 2026, em uma dinâmica estrutural compartilhada: preferência pronunciada por transações de maior porte, com compradores estratégicos bem capitalizados impulsionando o valor total dos negócios mesmo com a contração ou estabilização do número de operações concluídas.

Esse padrão reflete uma seletividade crescente entre os participantes do mercado e o peso desproporcional de megadeals que, individualmente, respondem por parcelas substanciais do capital alocado em um único mês — característica definidora do ciclo atual em ambas as geografias.

No Brasil, os dados dos primeiros meses de 2026 confirmam uma recuperação qualitativa com impulso considerável. O primeiro trimestre registrou o melhor desempenho para o período desde 2021, com USD 15,9 bilhões em valor transacionado — alta de 30% em relação ao 1º trimestre de 2025 — apesar da redução no número de operações concluídas, de 198 para 153 transações. Essa divergência entre crescimento de valor e contração no número de negócios não é sinal de fraqueza; ao contrário, indica concentração em operações maiores e mais sofisticadas. Para o ano completo de 2025, o total de M&A no Brasil alcançou USD 58,4 bilhões, com volume e capital alocado crescendo 5% e 6%, respectivamente, na comparação com 2024, segundo EMIS M&A.

Uma leitura granular da atividade mensal de M&A no Brasil revela um perfil de volatilidade do valor divulgado característico de mercados que ainda navegam o pós‑ciclo de juros elevados. Dezembro de 2025 e novembro de 2025 sobressaem como os meses de maior intensidade de capital na segunda metade do ano — USD 6,2 bilhões e USD 7,9 bilhões, respectivamente — sustentados por uma aceleração de fechamentos antes do período eleitoral de 2026, quando o mercado espera, de forma generalizada, maior incerteza de valuation e compressão de múltiplos na segunda metade do ano. Nos três primeiros meses de 2026, o ritmo de atividade, embora abaixo do pico de maio de 2025, permanece robusto e coerente com a expectativa amplamente compartilhada de que o primeiro semestre será o mais ativo desde 2021.

Entre as transações registradas no mercado brasileiro nos primeiros meses de 2026, destaca‑se a aquisição de participação minoritária na Global Eggs pelo fundo norte‑americano Warburg Pincus, avaliada em USD 1 bilhão; não apenas pelo tamanho — sendo a maior operação individual no período analisado —, mas sobretudo pela mensagem estratégica que transmite aos mercados de capitais globais sobre a atratividade e a maturidade do agronegócio brasileiro como classe de ativos. O investimento também sinaliza percepção promissora entre alocadores estrangeiros sobre o ciclo das commodities agrícolas e as vantagens competitivas sustentadas do agronegócio brasileiro no contexto de reconfiguração da cadeia global de abastecimento alimentar. Investidores internacionais estão de olho no Brasil em 2026.

Outras operações de grande porte no período evidenciam, com clareza, as forças que moldam o M&A brasileiro. A diversidade setorial em destaque — abrangendo agronegócio, farmacêutico, telecomunicações, óleo & gás e tecnologia — reflete a amplitude da onda de consolidação em curso, que engloba setores tradicionais da economia real e segmentos mais intensivos em tecnologia. Em conjunto, os cinco maiores negócios representam valor divulgado agregado superior a USD 2,6 bilhões, número que ressalta o crescimento do ticket médio característico do ciclo atual de M&A no Brasil. Transações como a aquisição da Sanofi Medley pela EMS (100% do negócio por USD 600 milhões) e a compra da Companhia Brasileira de Alumínio (CBA) pelo consórcio Chinalco/Rio Tinto, avaliada em USD 1,9 bilhão, merecem atenção especial. Operações em mineração/terras raras e data centers seguirão atraindo interesse.

Em perspectiva setorial mais ampla, tecnologia mantém liderança incontestável na atividade de negócios (com a IA remodelando não apenas o setor de tecnologia, mas todos os demais). O setor de saúde continua entre os mais dinâmicos no Brasil, com healthtechs, planos de saúde e consolidação de redes hospitalares no centro da atividade — a combinação Odontoprev e Bradesco Saúde, avaliada em USD 5,8 bilhões, representa a operação de maior valor no 1º trimestre de 2026. Energia e infraestrutura também aparecem como vetores de crescimento esperados para a segunda metade de 2026, apoiados pela matriz de energia renovável do Brasil e compromissos de longo prazo com a transição energética. Finalmente, Telecom e Infraestrutura Digital (com destaque para data centers e sua demanda por energia) serão transações emblemáticas nos próximos anos.

Do ponto de vista de investidores internacionais, a China intensificou seus investimentos e atividade de M&A no país, ultrapassando USD 6 bilhões em 2025 — crescimento de 45% sobre 2024 —; o Brasil lidera a participação do investimento chinês com cerca de 10%. A diversificação para presença em múltiplos setores foi um dos motores, com mineração e energia representando, cada um, um terço do investimento chinês no país — outros setores relevantes incluem indústria em geral e tecnologia. Os EUA continuam sendo um ator relevante; a presença de investidores estratégicos e financeiros deve melhorar ao longo do ano. A Alemanha, quarto maior investidor entre parceiros comerciais do Brasil, também manteve níveis significativos de investimento no país.

Por fim, podemos entender que o primeiro semestre de 2026 tende a ser um período muito ativo, com transações de grande porte — embora seja prevista uma redução relevante no número de negócios ao longo do ano. A atividade está sendo acelerada em antecipação ao ciclo eleitoral. O segmento de situações especiais / mercados distressed segue ativo e deve atrair alocações oportunistas de estratégias de private equity dedicadas.

Acesse o artigo original em inglês aqui.

Sobre o autor

Alexandre Pierantoni
Kroll Managing Director/ Head of Brazil and LatAm Investment Banking
alexandre.pierantoni@kroll.com

Alexandre Pierantoni é Managing Director e Head de Corporate Finance para a América Latina e o Brasil na Kroll, com base em São Paulo. Sua carreira começou na PwC em 1992, onde se tornou sócio em 2007, antes de ingressar em uma boutique local de M&A em 2014 e chegar à Kroll em 2017.

Com mais de 30 anos de experiência, atua nas áreas de M&A, corporate finance, valuation e advisory estratégico, com forte expertise nos setores de consumo, industrial, tecnologia da informação, saúde e educação.

Ao longo da carreira, liderou transações de buy-side e sell-side para investidores estratégicos e financeiros no Brasil e na América Latina, assessorando grandes empresas nacionais e multinacionais em aquisições, desinvestimentos e mandatos de desenvolvimento corporativo.

Sua formação inclui graduação em administração de empresas e economia, MBA em Finanças pela FGV-EAESP e programas executivos na Kellogg, MIT, New York Institute of Finance e FGV.